A MENTE


A mente…

Outro dia eu estava no cabeleireiro quando entrou uma velhinha bem velhinha, mas bem velhinha mesmo, junto com uma mulher mais jovem que era, visivelmente, sua acompanhante. A velhinha era simpática, risonha, com a cabeça toda branca, e começou a explicar como queria o cabelo: um pouquinho mais curto mas não demais, enfim, esses detalhes. A acompanhante entrou na conversa, disse que não era bem assim, explicou como devia ser o corte, e a velhinha desistiu de repetir o que queria, para não criar caso.

A cena, sem importância aparente, me levou a pensar que não há nada no mundo pior do que depender. Crianças dependem, mas sabem que um dia serão donas de seus narizes, mas os muito idosos — e ainda lúcidos — sabem que serão cada vez mais dependentes, e isso é muito triste.

Quem depende não tem vontade própria nem para as coisas mais banais: não veste a roupa que quer, não come a comida de que gosta e não vai aonde gostaria de ir: talvez ver o mar, talvez um jardim cheio de plantas. Quem pode tem uma acompanhante, que na maior parte das vezes exerce seu poder fazendo com que sua vida — dela, acompanhante — seja a melhor possível. A velhinha que a siga, gostando ou não.

Pensando bem, seria preciso uma pessoa muito boa, excepcionalmente carinhosa e sensível, para compreender que aquela velhinha depende exclusivamente dela e que isso é uma coisa muito séria; como os filhos são muito ocupados e o trânsito complicado, só vão visitá-la ocasionalmente, e é para eles que ela se mostra gentil, simpática, agradável, já que geralmente são eles que estão pagando seu salário (para terem seu sossego garantido).

Da velhice ninguém escapa, a não ser os que morrem jovens; então vamos tentar aceitá-la, mas implorando a Deus que com a cabeça funcionando. As dores, por piores que sejam, dá para suportar; se for preciso andar de cadeira de rodas — elétrica, de preferência — dá para se acostumar, só não dá é para viver com a mente que não funciona mais.

Quando isso acontece, a pessoa se torna uma estranha, e não há nada mais doloroso do que olhar para alguém que você ama e não a reconhecer mais — e nem ela a você.

O gostar se transforma em dor, pena e culpa, talvez maiores do que se ela tivesse morrido.

Saber que ela depende de outra pessoa para trocar uma blusa, comer, mudar de posição na cama, é difícil de pensar sem sofrer.

Deus, que é tão poderoso, poderia evitar esse fim de vida para qualquer pessoa. Um infarto fulminante é uma benção; morrer dormindo, uma festa que deveria ser comemorada pelos que ficam com champanhe e fogos de artifício. Mas por que castigar a tal ponto algumas pessoas? E não só a elas, mas a todas que a conheceram jovem, com os olhos brilhando, viva, enfim?

Com todo respeito a todos os deuses de todas as religiões, esse mundo é muito mal feito. Mal feito e mau, pois ninguém merece certos sofrimentos, e ser privado do funcionamento da mente talvez seja o pior deles.

E que nenhum desses deuses leia esta crônica e me castigue.’

(Autor: Danusa Leão)

#claudialinsoficial

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